A fábrica da morte

5 09 2009
Grades em Auchwitz

Grades em Auchwitz

Amanheceu em Cracóvia e as condições climáticas eram as mesmas do fim da tarde anterior: céu cinza, chuva fina e um friozinho só pra nos obrigar a tirar o casaco do armário. Perfeito para dar o tom dramático a minha visita aos campos de concentração remanescentes da segunda guerra mundial.

Tomei o ônibus que faz o trajeto entre Cracóvia e o museu de Auschiwitz e ainda não imaginava o que estaria por vir. Sentei em minha poltrona e distrai minha mente com música e a paisagem monótona do caminho.

Uma hora e meia depois desembarquei em frente ao local mais infame da historia recente da humanidade. O lugar onde aproximadamente 1,1 milhão de pessoas foram executadas e tantas outras torturadas e mantidas em condições desumanas. Ali meu coração já começou a pesar no peito. Caminhei os poucos metros entre o ponto final do ônibus e o hall de entrada do museu e fiquei um tanto surpreso com a quantidade de turistas ao redor. Comprei meu ticket e aguardei ansiosamente pelo tour pelos corredores e salas onde tantas almas sofreram sem justificativa.

Logo no inicio é exibido um pequeno documentário sobre as condições de vida no campo de concentração e em que condições estavam os sobreviventes ao serem libertados pelo exercito russo. Após sair da sala de projeção o estomago já estava embrulhado, a garganta tinha um no e o coração estava apertado de aflição com tanta maldade.

A primeira vista de Auschwitz e o portão de entrada onde a irônica frase: “o trabalho liberta” recebia os novos moradores dos barracos do acampamento. Estes inquilinos vinham aos montes de todos os cantos da Europa, na maioria judeus, mas também havia ciganos, russos, tchecos, poloneses, ucranianos entre outras etnias que foram levadas para o destino inglório de sofrimento e morte.

A chuva não dava trégua, e caminhar pelas ruelas de lama entre um prédio e outro em fila no grupo do tour me deu a sensação de ser um dos prisioneiros caminhando pra mais um dia de trabalhos forcados, mal-alimentado, já sem saber o que significa dignidade e pensando que a expressão direitos humanos não passa de uma piada de mau-gosto. Cada passo era um esforço, como se os pés ficassem grudados na lama, como se cada gota de chuva fosse uma pequenina agulha perfurando a pele e aumentado o frio.

A lama e a chuva deram o tom sombrio à visita

A lama e a chuva deram o tom sombrio à visita

Em cada prédio do campo uma prova dos crimes cometidos ali pelos nazistas. As fotos de casa interno nos corredores onde mais de mil faces sem expressão nos olham com olhar opaco sem esperança, como quem não pode fazer nada pra salvar a própria vida e só tem a opção de resignar-se e esperar a morte.

E justamente a especialização em matar de forma industrial que fez com Auschiwitz I e II (Birkenau) se tornassem lugares tão sombrios e malditos até hoje. A frieza dos oficiais da SS em separar logo na chegada quem morreria imediatamente e quem sofreria dezenas de ignonimias antes de antes do destino final me deixou chocado.

Simplesmente os fracos e doentes, velhos e crianças eram conduzidos como gado para as câmaras de gás sob a ardilosa desculpa de que tomariam banho e depois se juntariam a suas respectivas famílias. O que para quem passara os últimos dias confinado em um vagão de trem super lotado mal conseguindo respirar, parecia uma dádiva.

Mas em pouco menos de vinte minutos tudo não passava de um amontoado de até 700 corpos para serem queimados nas fornalhas localizadas logo atrás do local do extermínio.

E o que parece terrível pode ficar ainda pior quando chegamos nas salas com algumas amostras de como os nazistas aproveitavam tudo dos corpos do executados – alem dos trabalhos escravos os cabelos eram aproveitados na confecção de tapetes e roupas, principalmente as das mulheres. Os cabelos eram armazenados em pacotes de 22kg a 28 kg. Hoje no museu existe uma amostra de duas toneladas de cabelos oriundos de 45 mil vitimas diferentes. As cinzas dos cremados também era usada como adubo nas fazendas nazistas.

O auge de todo o “passeio” é entrar na única câmara de gás remanescente e imaginar o desespero e o terror das pessoas ao começarem a sufocar com o veneno chamado zyklon b. Estar naquele lugar funesto e de energia tão ruim me fez sentir uma tristeza profunda, fiquei sem vida por uns instantes tentando imaginar o que essas pessoas tiveram que enfrentar por causa da intolerância alheia.

Birkenau

Birkenau

No finzinho do tour ainda tive tempo de conhecer um brasileiro, mineiro que mora no rio. Voltamos juntos pra cracóvia. Como ele estava hospedado ha duas quadras do meu hostel combinamos de irmos juntos pra noitada. Fomos nos dois, três portugueses, dois australianos, dois norte-americanos, três polonesas e o bonde partiu pesadão muito bolado pr uma boate chamada kitch com garotas fantasiadas dançando por todos os cantos. Onde conheci Sylwia, uma polaquinha de 20 anos, loirinha e que me fez deixar a Polônia de coração partido.

Até a próxima!

Momento mais descontraído do dia: Eu e Sylwia

Momento mais descontraído do dia: Eu e Sylwia

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Ações

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2 responses

5 09 2009
Rodrigo

O ápice da viagem, do ponto de vista histórico.
Deve ser uma das sensações mais arrepiantes que se tem notícia.

5 01 2011
Cristiane Candido

Cara, vc não tem noção de como eu quero ir a esse lugar! As suas descrições são muito boas… Fiquei profundamente tocada. Eu acho que choraria horrores lá. Ainda bem que no fim das coisas… A balada foi boa pra vc! Hehhe!

Beijos, Cris

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