Refém das circunstâncias

21 03 2008
arg 339

bloqueio na estrada feito pelos fazendeiros argentinos

Eu acordei e tomei banho e sai disposto a encarar às 15 horas de viagem até posadas. Mas havia uma pedra no caminho, ou melhor tratores e camponeses mau-humorados. Sim a Argentina passa por uma crise entre produtores agrários e o governo. Os fazendeiros exigem baixa de 20% do preço dos fertilizantes, mas o governo diz que só pode dar desconto nos nacionais, e em contrapartida os agricultores só usam 40% de fertilizantes nacionais em sua fórmulas.

E é em meio desse enredo que eu realmente me lasquei. Saímos de Salta às 15h da tarde de segunda-feira dia 16 de março. Estava tranqüilo por que a maior parte da viagem seria durante a noite e então quando acordasse estaria bem próximo de Posadas. Mas do nada paramos no meio da madruga em um posto de gasolina. Como não é nada fora do normal voltei a dormir.

O duro foi acordar com o sol nascendo e perceber que estava parado no mesmo lugar, cinco horas depois. O pior foi o motorista nem sequer avisar, simplesmente encostou o busão e assim ficou. Alguns passageiros desceram e voltaram com a notícia de que camponeses revoltados estavam bloqueando a estrada nas duas direções, ou seja não se ia em frente, muito menos se voltava de onde veio.

No primeiro instante não acreditei, achei que não poderia acontecer um absurdo destes, mas a quantidade de gente no posto de gasolina provou que não era um chiste, mas um realidade violenta, um soco no meu estômago, que não tenho nada a ver com isso.  E pra me deixar mais fulo da vida é que nenhum dos manifestantes tinha armas alguma, simplesmente botaram cadeiras nas ruas, atravessaram os tratores, colocaram umas tendas e fizeram churrasco, enquanto nós, os reféns, éramos obrigados a comer bata-frita em pacote, cheetos, sanduíche pré-fabricado, biscoitos sem graça, sorvete e só.

Eu estava no inferno, definitivamente. No meio do nada, só mato e muita poeira ao redor, sem nenhuma perspectiva de sair dali tão cedo, pois os primeiros relatos davam conta que já tinha gente presa ali desde dois dias antes. O jeito era resignar-se e tentar arrumar algo para fazer,ou conhecer as pessoas ao redor.

arg 336

o jeito foi estacionar na sombra e esperar

Logo comecei a conversar com um casal dos estados unidos, eles não podiam acreditar também no que se passava, ainda mais sabendo que ninguém estava armado e tinham dois policiais lá só assistindo.

O jeito era usar a criatividade para passar o tempo. Mas o calor era tanto que o máximo que poderíamos fazer era ficar sentados conversando dentro da lojinha do posto, pois tinha ar-condicionado.

As horas iam passando e nenhuma solução aparecia. E eu já não agüentava mais comer biscoito. No ônibus é impossível ficar porque parecia um forno. E nós já parecíamos mendigos. O pior era que tinha gente que já estava ilhada ali há dois dias, e ter essa perspectiva era um pesadelo dos mais graves.

Depois de mais de 12h horas lá a tensão ficou maior. Um caminhoneiro começou a reclamar com os manifestantes, pois teria prazo para a carga e não podia continuar ali. Então por conta própria iniciou um contra-ataque e atravessou sua carreta na pista para impedir que os manifestantes saíssem para suas casas no revezamento, ou buscar alimentos. E muito certo, se nós não podemos ir a lugar nenhum, negue pode. Detalhe, o cara que fez isso era brasileiro, e ainda, de sacanagem falou que durante a noite começaria a incendiar as caminhonetes dos manifestantes, e apontou pra uma branca, seu dono esbugalhou os olhos e meteu o pé. Outros caminhoneiros seguiram o exemplo e fecharam as passagens para os agricultores.

Aí eu tive a certeza que viria uma longa, desconfortável e suja noite. Não tinha nada pra comer que fosse descente, não tinha como tomar banho e dormir em assentos de coletivos, mesmo sendo semicama é uma porcaria.

Outra coisa muito ruim eram os alarmes falsos, toda hora havia um boato de que liberariam as estrada, todos corriam pra seus ônibus e depois de dez minutos decepção. A noite já estava correndo quando descobrimos que do outro lado da estrada tinha algo que eles chamavam restaurante.

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trecho de terra batida, única maneira de evitar as manifestações

Uma casinha que adaptarem, não tinha menu, era só ou carne ou frango assado, com arroz e salada básica de tomate, alface e cebola. E fomos lá eu, uma garota de Israel, o casal americano e outro casal irlandês. A tia do local não era muito simpática e como não decidíamos o que comer ela simplesmente nos abandonou.

Já estávamos conformados com a condição de reféns, e que não teríamos um tempo pré-determinado para ficar ali, então pedimos uma coca, pois diz o ditado que “se o estupro é inevitável, relaxa e goza”! E assim o fizemos, mas quando mal abrimos a coca o povo ao redor começou a correr, e se levantar, subia poeira onde dava pra enxergar. e  Alguém entrou no restaurante dizendo que eles iriam nos liberar.

Ninguém pensou duas vezes, deixamos 4 pesos na mesa pela coca, suspendemos o pedido e saímos que nem doidos pela rua em direção ao nosso transporte. O motorista estava abotoando a roupa e disse que sairíamos em breve, mas que não deveríamos ficar tão esperançosos pq havia outras barreiras como aquelas e nada garantia nossa passagem livre até o destino final.

E não deu outra, 30 km à frente entramos em uma cidadezinha chamada Roque Saenz Peña, e paramos na rodoviária, até aí nada de mais, pois esses coches são verdadeiros cata-cornos e param em tudo que é buraco.  Então desci e perguntei ao chofer se havia tempo suficiente pra uma ligação pra casa, e ele me disse que poderia ter o tempo que quisesse pois ficaríamos a noite toda pois logo na saída da cidade havia outros bloqueios, voltei pa cima e dei a triste notícia pra galera  que não parecia acreditar e eu afirmei que não era nenhum tipo de brincadeira babaca, usei inglês e espanhol pra que todos os passageiros compreendessem.

arg 424

e foi assim, parecendo um náufrago que finalmente chegeui em Posadas, mais de 24 horas depois do previsto

Assim nossa tortura continuou por mais tempo. Pelo menos com um pouco mais de estrutura, tinha até um pequena lan house na rodoviária. Fiquei lá uma meia hora depois voltei e encontrei com dois brasileiros que estavam no fundão do ônibus e eu não tinha conversado com eles. São do RS e trabalham justamente dirigindo ônibus fabricados no Brasil para levá-los até os clientes no peru, Bolívia, Venezuela, Chile, Argentina e Paraguai. Desta vez estavam voltando do norte do Chile.

fomos tomar umas cervejas juntos, pois era a única coisa que nos restavas a meia noite e eles me contaram boas histórias das viagens que fazem com os coletivos que entregam, a corrupção da polícia em todos os países e etc. Às 3h voltamos pros nossos assentos e tentei dormir.

O sol nasceu e me despertou de uma péssima noite de sono, mas com boas notícias. O motorista descobriu um caminho alternativo e sairíamos em breve. e fomos em meio a umas trilhas de terra no meio do matagal terrível. Nunca pensei que um veículo daquele tamanho poderia passar em espaço tão pequeno.

Felizmente esta solução finalmente deu certo e seguimos em paz. seis horas depois cheguei em posadas com um dia e seis horas de atraso, a viagem que deveria durar 15 horas demorou 48.  e vivi o maior perrengue da minha vida, mas pelo menos em momento algum fui ameaçado ou corri algum risco, mas que foi duro, isso foi. Lá despedi dos novos amigos e tomei um táxi até a casa do Anders, que não acreditou quando me viu chegando no seu quintal, pois as previsões da empresa de ônibus nunca eram corretas, u muito menos otimistas.

Demorei tanto a escrever porque quando cheguei aqui não tive forças pra mais nada, botei toda a minha bagagem pra lavar, tomei um banho mais que merecido, comi comida  de verdade e dormi por mais de 12 horas seguidas, depois veio a semana santa e aqui na Argentina a quinta também é feriado, então quando fui ao locutório tinha fechado mais cedo.

Cortei o cabelo, fiz a barba, sou outro. E aqui encerro este tema, daqui pra frente só minhas experiências vivendo como um argentino típico que é o que farei aqui em Posadas.

fui!

suerte!

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Information

2 responses

21 03 2008
Lex

hehehehehe…..

22 03 2008
Pai e Mãe

Oi filho ate que enfim, estavamos preocupados, estamos com saudades volte breve, saudades!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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