Perdido no deserto

15 03 2008
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esta era a paisagem pra qualquer lado que se olhava

O dia amanheceu e eu acordei disposto a encarar uma jornada através do deserto, vales e montanhas para atravessar de San Pedro (Chile) até Salta , no norte da Argentina. Peguei minhas coisas e fui até a praça para tomar o ônibus, pois a cidade é tão pequenina que não tem nem rodoviária.

O detalhe curioso é que parecia uma excursão colegial pois a tia que vende as passagens fica comandando a galera para segui-la até onde o ônibus vai parar. Um bando de mochileiros de tudo quanto é canto do mundo. E no meio daquela poeirada toda embarcamos.

Não deu nem cinco minutos de viagem  e já paramos na aduana chilena, pois ninguém gostaria de ficar preso num escritório no meio do nada, por isso a polícia chilena faz o controle da fronteira há muitos km antes.

Seguimos então cruzando o Atacama, cercados de vulcões, dunas e rochas, ao longe lagos de sal, lhamas e vicuñas. E nesse cenário, depois de duas horas de viagem, o ônibus começou a engasgar. Diminuiu a velocidade, quase parava, e seguia. Até que o motorista e o assistente decidiram parar o veículo e mexeram no motor. aperta aqui, torce ali e mais uma tentativa e anda e vai e quase pára, e anda mais e diminui e não sai quase do lugar e pára de novo. Outra tentativa de reparo e mais uma vez anda e vai  e não vai, e engasga e acelera e passa a primeira, segunda, terceira e quarta marcha e a velocidade não aumenta.

Aí vem o desespero. o motorista avisa que não tem jeito. Vamos ter que parar e descer. Isso não seria problema se não estivéssemos a 200km de distância de qualquer tipo de civilização. O socorro mais próximo fica em Calama a 3 horas de viagem dali. alguns passageiros decidiram caminhar pelo deserto, ir até uma lagoa de sal próxima. eu fiquei conversando sobre futebol com um francês e um irlandês. Eu estava muito preocupado por dois motivos: primeiro porque não tinha levado água comigo na viagem; segundo porque reservei uma vaga num albergue em salta e não sabia se chegaria a tempo de garanti-la.

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O "salar" onde o ônibus enquiçou pela primeira vez

Passaram 15 minutos e o chofer decidiu tentar outra vez pra ver se dava pra alcançar a aduana argentina a 10km dali, um porto seguro, mas não a solução. chamamos a galera que estava espalhada e fomos outra vez. O ônibus se arrastou alguns km até começar um descida, que foi no embalo. O co-piloto pegou carona com um caminhão pra chegar primeiro e ligar pedindo o socorro.

Chegamos na aduana argentina e nossos problemas estavam longe de terminar. A treta com o motor era na injeção de gasolina, que não estava alimentando com combustível suficiente. Fomos por escritório pegar os vistos de entrada  e em seguida o motorista avisou que viria outro de San Pedro pra nos levar a diante na jornada, mas não sabia quanto tempo demoraria.

começou nosso drama. Parados em um buraco a 4000 metros de altitude, com os efeitos colaterais perturbando, eu já estava com uma puta dor de cabeça, nada ap redor, só uma barraquinha vendendo besteiras e bebida pra aplacar sede e fome de cada um.

Nesse desespero cada um teve que se virar como pode. Alguns começaram a ler, outros cochilaram, teve quem desse uma caminhada. Eu comprei um chocolate e um suco e fiquei de papo com um casal de coroas de porto alegre. eles já conheciam salta de me deram dicas sobre o local. Depois tentei ler, dormir e nada, joguei sudoku mas também a agonia não passava. Foi então que comecei a escutar uma barulhada do lado de fora. Era o francês jogando mau-mau com 3 japoneses.

É claro que fui lá pois parecia divertido e definitivamente era a melhor opção depois de quase 3 horas de tédio absoluto. Assim que me juntei também chegou a inglesinha namorada do francês e resolvemos que a brincadeira teria uma parte didática. Cada um que distribuísse as cartas contaria em uma língua diferente. Eu contei em português, um japa em espanhol, outro em chinês e outro em japonês. O francês e a inglesa contaram em suas respectivas línguas. Foi muito divertido.

Depois de cinco horas parados no meio do nada chegou o ônibus, trocamos as bagagens e seguimos com o sol já sumindo. A previsão era chegar a Salta por volta das 10 da noite, mas com o atraso chegaríamos as 3h30 da madruga!

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um dos vulcões que nos cercavam

Uma hora depois paramos em um restaurante pra jantar por conta da empresa de transportes.  Nada muito especial, aliás não tinha opção. ou era bife à milanesa ou bife à milanesa, e poderia vir acompanhado de arroz ou purê de batatas, e sem escolha a guarnição era questão de sorte. Sentamos juntos os japoneses, o casal anglo-francês, eu e os irlandeses, a garçonete veio trazendo os pratos e pra mesa toda vinha só a carne e arroz, até que na última leva veio um prato com purê. Não dei nem chance da moça pensar, já fui pegando o prato com o purê da mão dela. Troquei meu bife pelo arroz do francês e isso foi minha janta.

Votamos por ônibus e descendo pra Salta, sofri todas as conseqüências da altitude, insônia, dor de cabeça e ouvido, pois no percurso atingimos até 4800m de altura, Chegamos finalmente na rodoviária e nem tive tempo de despedir dos amigos pois o casal de brasileiros me ofereceu carona e eu sem nenhum dinheiro argentino não podia negar.

eles me deixaram na esquina da rua onde fica o albergue, só que a 6 quadras de distância e lá fui eu andando em plena madruga, cheio de bagagem nas ruas de uma cidade que não conhecia. Pra ficar pior comecei a passar por travecos e garotas de programa, acelerava o passo e nunca chegava a porcaria do hostel.

Cheguei lá suado, cansado, dolorido e extenuado. Subi pro quarto tomei uma ducha rápida e fui dormir, pois o que mais necessitava era descanso.

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