Intenso, latino e verdadeiro

7 03 2008

A noite de ontem foi memorável. Não aconteceu uma festa de arromba ou algo assim, mas as coisas simples e prazerosas da vida vieram a tona nesta ultima quinta. Já no espírito mais por menos eu e Jack um inglês de 19 anos  e que eu só entendo metade do que ele fala porque tem um sotaque bem carregado, fomos ao supermercado pra comprar comida pra preparar no albergue, coisa que deveria ter feito desde o começo, mas enfim.

La no mercado compramos o campeão de preferência dos mochileiros: macarrão (no nosso caso talharim de espinafre); e ainda uma cebola do tamanho da cabeça de um bebê de três meses, um pimentão vermelho, duas embalagens de molho de tomate, um pacote de queijo ralado e 150g de azeitonas verdes. Pra beber uma cerveja cristal de 1lt e um garrafão de néctar de durazno (pêssego) de 1,5lt.

Voltamos e eu preparei a pasta e ele o molho na cozinha mais concorrida de Santiago, eram seis pessoas preparando comida ao mesmo tempo em um fogão de quatro bocas, nem tentem imaginar como funciona. Tudo pronto sentamos pra comer na sala de convivência do albergue junto com os australianos Adam e Aliza, mais o polonês Peter, e o outro inglês que esteve comigo em Mendoza e não lembro o nome. O assunto da mesa: Rio de Janeiro, e o Peter começou a mostrar um slide show das fotos que fez durante os dois meses e meio que passou lá. Todos os que foram ou vão se encantam.

Enquanto estávamos divagando sobre a cidade maravilhosa, Marcos, o gerente do Albergue colocou no aparelho de som um cd do Chico Buarque, então fui ao êxtase e desandei a falar sobre a musica brasileira e explicar um pouco a relação de Chico com a MPB, a ditadura e o Brasil. Muito bom.

Enquanto estava o tempo todo falando em inglês na mesa ao lado rolava uma animada roda de conversa em espanhol entre uns chilenos, um panamenho, uma italiana e uma espanhola. Então um livro largado sobre a mesa chamou-me a atenção, o titulo dizia: “Cuando me muera quiero que me toquen cumbia” , uma espécie de “Cidade de Deus” ou “Abusado” escrito por uma jornalista argentina sobre um famoso bandido de Bs As.

Como este assunto muito me interessa migrei pra mesa latina e me interei melhor com a chilena dona do livro e ai o papo ficou cada vez mais interessante. Érika, dona do livro, trabalha como assessora de imprensa de artistas plásticos aqui em Santiago, Curi, outra chilena que é cineasta e tem um programa de radio independente e trabalha na recepção do albergue pra poder ter uma graninha pra por os projetos pra frente, e completando a roda comigo, Javier, um economista panamenho de 40 anos e católico super fervoroso só podia fazer bem uma variedade dessa.

Primeiro comecei a conversar com Érika sobre o jornalismo voltado para a denuncia social, como no caso do livro que nos aproximou, depois ela perguntou se eu morava nos EUA, pois meu inglês era perfeito, fiquei um pouco ruborizado e disse, mais uma vez que era a primeira vez fora do Brasil.  Então Curi levou o assunto para o lado da arte e o bicho começou a pegar, pois eu e ela temos pontos em comum, ela sobre o cinema e eu sobre a poesia e como essas formas de arte servem pra expressarmo-nos, como nos conecta com o mundo ao redor, mas Javier puxou a sardinha por lado da religião e que a inspiração nunca vem ao acaso.

Não prestou, Curi começou a dizer que a existência divina e relativa e o caldo engrossou, eu intervim dizendo que a criação artística não e algo que fazemos como fim financeiro ou forma de chamar atenção, mas tão somente é a forma que temos mais clara de dizer o que sentimos, então ficou mais calmo.

E dai o assunto ficou mais perigoso e explosivo, pois o tema era a verdade e suas verdades. Pra Javier, que me disse ter sentido experiências únicas com a religião, acredita que a verdade é algo único e imutável, mas Curi começado a rechaçar, e Érika não sabia mais o que falar, e eu tentando a diplomacia dizia que a verdade não e volúvel, mas sim aquele que olha a verdade, que todos somos distintos e temos formas distintas de perceber o mundo.

Curi, que é latina ao estremo, se estressou e praticamente desistiu da conversa, mas eu trouxe outro assunto a tona, mas ai não adiantou muito, pois o que eu disse, digo sempre, é que a nossa inteligência nos condena a angustia, ou seja, saber que existem coisas que não conhecemos, que não experimentamos e que estão aí ao alcance, ou não, são inatingíveis, nos traz a realidade de sermos mortais e vulneráveis e até mesmo limitados, e não superpoderosos com nos julgamos. É a mais básica teoria de Sócrates, só sei que nada sei, e que todo dia nos golpeia a face  e coloca-nos em nosso devido lugar.

Mas Curi não concordou, dizendo que ela não sente assim, mas quando alguma questão a angustia, como não conhecer o mundo, ela vai la e o faz, sem medir conseqüências, como quando foi pra Europa com o dinheiro da passagem e mais o suficiente pra um mês e ficou um ano. É um assunto delicado e as diferentes formas de olhar o mundo, de acordo com a bagagem cultural, ética e psicológica que cada um tem molda nosso ponto de vista, por isso foi explosivo o assunto.

E então surgiu o assunto de o que é a felicidade, e pelo menos aí todos os quatro concordaram. Eu disse que a felicidade é mais simples do que parece e está presente nas coisas simples, como uma conversa entre amigos, um bom filme ou uma comida gostosa, e que erramos ao achar que é algo mais grandioso, tão grandioso que se torna inalcançável e nos frustra. Érika e Curi confirmaram, dizendo que tomar um bom vinho, ou um vinho ruim, mas com boa companhia, ou fazer as coisas que gosta e com amor é ser feliz, Javier se limitou a concordar com a cabeça.

Érika foi embora e Curi já estava bastante desgastada com as discussões religiosas e filosóficas com Javier, então decidiu viera de lado e conversar com os outros chilenos a mesa. E eu comecei a esclarecer Javier quanto o que havia sido falado sobre a verdade e o que supostamente ela seria, pois as afirmações de Curi o havia ofendido. Ele me contou as experiências que teve com a religião católica e como aquilo era uma sólida verdade, dai eu disse que ele tinha razão pois se ELE experimentou é uma verdade imutável pra ELE, e que é impossível fazer com que a sua verdade se sobreponha em relação a do próximo.

Ele tinha tomado essas afirmações como uma espécie de heresia, uma bofetada na cara, mas ninguém havia debochado de sua fé, por isso passei uma meia hora explicando de maneira mais pratica o que queríamos dizer. Falei que experimentar Deus como ele experimentou era uma verdade, mas a forma que ele experimentou era uma verdade pra ele, e que a maneira que um mulçumanos, um judeu, um hindu ou um budista experimenta a experiência com o divino é uma verdade pra cada um e que pelo menos 50% dos problemas do mundo existem porque alguém que impor suas verdades a outro pela forca, e é impossível fazê-lo.

Então ele parou e me olhou de um jeito e vi que ele entendeu e se surpreendeu com a verdade que havia ali, e que em 40 anos de vida  ele não tinha se dado conta como era uma questão simples, basta apenas respeitar a opinião alheia.  Depois disso falamos de amenidades como o futebol  e a paixão que os panamenhos tem principalmente pelas seleções do Brasil e da Argentina  e que quando as duas se enfrentam o pais vira um caos. Então contei pra ele sobre o Bernardinho e como nosso maior técnico, acredita que o segredo da vitória não está na vontade de vencer e sim na vontade de se preparar para vencer. ele mais uma vez me olhou abismado, pois também se trata de uma afirmação muito forte  e interessante. Mais dez minutos e conversamos sobre a influencia das novelas brasileiras  no cotidiano panamenho e nos despedimos com ele elogiando o meu espanhol.

Foi tão intensa essa seqüência de diálogos que eu mal dormi a noite pensando em tudo o que foi dito e poderia ter sido dito. acordei 7h da manha e vim escrever, pois foi tudo intenso, latino e verdadeiro. Infelizmente não tirei nenhuma foto do evento. perdon!

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4 responses

7 03 2008
DANILOjUCARA

Oi filho pai e mae, nao entendemos muito esta conversa, so sei o que me contam no boteco, conversa de bebado, mas vc e um expert no assunto pois esta dominando todos os idiomas aih, e nao conheço nenhima pessoa com tal fato akisu mae esta dizendo que essa viagwem esta te dando muitas opportunidades e conhecimentos mundiais em locim, ainda nao li nenhima conversa en hindu segundo sua posiçcoa no yogurt, volte breve beijos do se pai e mae!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!saudades

7 03 2008
Lex

Eu não tenho idéia do que você viu nessa viagem. Suas fotos (“bem tiradas”) nos dão uma pseudo-sensação de que você está experimentando algo fantástico e que isso está gerando mudanças radicais na sua vida. E que você está longe de casa.
Nenhuma foto ia retratar tão bem esse(s) papo(s).
Mas arrisco dizer que, essa noite valeu a viagem…
Me diga que você tem os contatos da Erika e da cineasta Curi.

P.S.: Valeu pelo lembrete. Esqueci de te dizer que leio o blog todo dia.

8 03 2008
Renan e Andréia

Vc viu na quinta-feira o vexame do seu time? Viu tudo o que aconteceu? Da torcida zuando e os jornais uruguaios dizendo que foi uma vitória muito fácil, (pega um reporter uruguaio depois, e dá uma moca nele) dia 19 vai ter o jogo de volta contra o Nacional aqui no Maraca com a nossa torcida, to afim de ir pra dar o troco neles, pelo menos na parte de espetáculo de torcida. Seria maneiro se você tivesse ido ao jogo, apesar do resultado e alem do mais você não estava no Uruguay. Mas é isso ae jão!

Aí, tem bara aí?

8 03 2008
Paty

SAUDADEEEEEEEEEEE!!!!!!!!!!!!

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